Por Cláudio Munhoz
Entra eleição, sai eleição, e as promessas são sempre as mesmas. Entra carnaval, sai carnaval, e tudo permanece sem solução. Eis a nossa triste realidade cultural, política, administrativa, econômica e social. Os problemas brasileiros são seculares, assim como secular é a nossa incapacidade de enfrentá-los e resolvê-los.
Fantasiados de cidadãos, pecamos por não fazermos bem a parte que nos cabe nesse intrincado enredo, qual seja, a de cumprir devidamente com os nossos deveres e obrigações, ao mesmo tempo em que não temos a noção clara do que nos é de direito, tampouco de como reivindicá-lo. E sendo essa a atmosfera a envolver tragicamente a passagem da “grande escola” pela avenida, o que esperar daqueles que do nosso meio são alçados para ocupar cargos políticos e postos da administração pública?
O cenário no qual nos movimentamos não poderia ser mais desolador. Enquanto a arrecadação de impostos, tributos e contribuições bate sucessivos recordes, conservando em níveis insustentáveis a carga tributária que pesa sobre os ombros do contribuinte e do setor produtivo, a falta de seriedade e competência na formulação de políticas públicas e no correto investimento dos recursos, aliada à voracidade daqueles que se lambuzam na lama da corrupção e de outras tantas mazelas, empurra o país para a margem da passarela. Em resumo, aqui no Brasil, assistimos com a mais absoluta passividade à prática de uma política tributária digna de primeiro mundo, ao mesmo tempo em que, como contrapartida, o Estado oferece à população serviços públicos cuja qualidade se compara aos mais baixos padrões registrados no continente africano. Para onde está indo a diferença?
É fato, no entanto, que as classes menos favorecidas estão se alimentando melhor, graças aos programas assistenciais do governo que, embora tenham um caráter emergencial da maior relevância, ocultam intenções e objetivos de natureza pouco nobres. Também é verdade que para a população de baixa renda houve um importante incremento na oferta de emprego, por conta da elevação da taxa do nosso crescimento econômico, muito mais motivada pelos ventos favoráveis que sopram na economia mundial há cerca de meia década do que propriamente em decorrência de uma ação vigorosa e coordenada do governo. E quanto ao resto? Não é essa significativa parcela da população que depende basicamente dos serviços públicos para sobreviver? A resposta é uma só: a mão que dá, ou que finge dar, é a mesma que tira.
Os mais ricos, que desde o início da nossa história estabelecem as regras do desfile, assistem a tudo de camarote. Os números extraordinários ostentados pelo setor financeiro nesta década não desmentem essa realidade. Já a classe média, a que contribui com a maior fatia de tudo que vai parar nos cofres do Tesouro, vem sendo fortemente penalizada com o estado de degradação dos serviços públicos, porquanto, para manter sua instável posição social, vê-se forçada a despender vultosos gastos com serviços privados de educação, saúde e previdência, o que na prática se configura num escandaloso caso de bitributação.
Alegorias à parte, vivemos a era do “oba-oba marketeiro”: muito barulho, pouca ação e resultados pífios. De direita, centro ou esquerda, as diferenças de conteúdo ideológico, consistência administrativa e integridade moral e ética entre os nossos governantes e parlamentares têm sido quase imperceptíveis. O Brasil precisa com urgência reavaliar e redefinir conceitos e valores, de modo a promover um amplo e profundo programa de reformas que alcance todos os segmentos, setores e níveis da sociedade. Um projeto sério de nação para um país com a potencialidade material e humana de que dispõe não pode se dar ao luxo de continuar a reproduzir os vícios e as práticas abomináveis de antigos carnavais.
Quanto a isso, há dois mil anos, Jesus já alertava:
“Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, porque semelhante remendo rompe a roupa, e faz-se maior a rotura.
“Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.”
(Mateus 9: 16-17)
Um comentário:
Extraordinário texto!
A frase que vc utilizou: "a mão que dá é a mesma que tira", encaixa-se perfeitamente!
É ótimo poder ler um texto bem elaborado que trata da nossa realidade na atualidade. Gosto de ler textos do gênero. Concordo plenamente com sua visão dos fatos.
Grande abraço!
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