segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

COLUNA ATELIÊ LITERÁRIO (Edição No. 3)

PELOS MARES INFINITOS DA CRIAÇÃO

Por Cláudio Munhoz


Certa manhã de outono, acordei com uma deliciosa sensação de paz interior. Através da janela do meu quarto, fixei por longos minutos um pedacinho de céu azul, que dava ao cenário cinzento daquele enquadramento enviesado um toque suave de poesia.

Lembrei-me do sonho que tivera pouco antes de despertar. Achava-me num lugar aprazível, cercado de árvores exuberantes e flores silvestres. Por toda parte, pássaros de variadas espécies entoavam, em alegre algazarra, cânticos de louvor à vida. Mais adiante, onde o caminho fazia uma curva para a direita, margeando extensa área descampada, uma multidão se concentrava em respeitoso silêncio. Ao me aproximar daquela gente para certificar-me do que estava acontecendo, vi no alto de um monte um ser de encantadora beleza, semelhante ao Filho do Homem, com vestes alvas e talares, cingido à altura do peito com uma cinta de ouro. Depois de lançar sobre a assistência um olhar terno e pleno de mansidão, ele ergueu os braços e elevou a voz, dizendo:

- Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de personagens.

A multidão, tomada de profunda emoção, pôs-se a segui-lo através do caminho, em direção à grande cidade que, ao longe, reluzia em todo o seu esplendor. No instante em que estava prestes a atravessar o portão daquela misteriosa cidade, uma nuvem branca me envolveu e me arrebatou, trazendo-me de volta ao corpo físico, que logo em seguida iria despertar para mais um dia de luta.

Levantei-me, tomei um banho morno, fiz um leve desjejum e saí para a minha costumeira caminhada matinal. Durante o percurso, meditei profundamente sobre o significado daquele sonho. As impressões que colhera durante aquela viagem astral impregnavam-me a alma de tal modo que, em meio ao trânsito frenético de anônimos passantes, pude captar o valor intrínseco da mensagem que me fora transmitida.

Em verdade, o término de um ciclo profissional, que abrangeu um período de vinte e cinco anos de minha existência, não representava para mim o fim em si mesmo, mas o início de uma nova jornada pelos caminhos da arte. E nesse contexto, a costumeira caminhada matinal pelas ruas do bairro passou a ter um valor simbólico inestimável, porquanto, na livre expansão do desejo de dar vida ao meu projeto literário, achei-me navegando pelos mares infinitos da criação, feliz e determinado, com a humildade de um pescador de personagens e o idealismo transcendente de um mercador de sonhos.

4 comentários:

Unknown disse...

Muito bom, Claudio!!!!
Você tem que publicar essa crônica!!!

Unknown disse...

Você consegue fazer com que a gente viaje e sinta as mais sublimes sensações na alma, no corpo, através de sua escrita...Parábéns... E como sempre adoreiiiii!!!Sou sua fã incondicional,porém, vc é merecedor...

Márcia Regina

Luiza disse...

Claudio:

Depois de ler o seu texto mne lembrei de um outro que recebi recentemente...

A COMPLICADA ARTE DE VER




Ela entrou, deitou-se no divã e disse:

"Acho que estou ficando louca".
Eu fiquei em silêncio aguardando que ela

me revelasse os sinais da sua loucura.
"Um dos meus prazeres é cozinhar.
Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates,

os pimentões - é uma alegria!

Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha
para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes:

cortar cebolas.
Ato banal sem surpresas.
Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto.

Percebi que nunca havia visto uma cebola.
Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz
se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo

a rosácea de um vitral de catedral gótica.
De repente, a cebola, de objeto a ser comido,
se transformou em obra de arte para ser vista!

E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei
os tomates, os pimentões...
Agora, tudo o que vejo me causa espanto."


Ela se calou, esperando o meu diagnóstico.

Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei

as "Odes Elementales", de Pablo Neruda.
Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse:

"Essa perturbação ocular que a acometeu
é comum entre os poetas.
Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela

que lhe causou assombro:
'Rosa de água com escamas de cristal'.
Não, você não está louca.

Você ganhou olhos de poeta...
Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado.


Isso é estranho porque os olhos, de todos
os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil
compreensão científica.

A sua física é idêntica à física óptica de
uma máquina fotográfica:
o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro.

Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou:


"A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê".
Sei disso por experiência própria.

Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés
diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.

Mas uma mulher que vivia perto da minha casa
decretou a morte de um ipê que florescia à frente

de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho
para a sua vassoura.
Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.


Adélia Prado disse:

"Deus de vez em quando me tira a poesia.
Olho para uma pedra e vejo uma pedra".



Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra.

A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.


"Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios",

escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.


Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa
da educação é ensinar a ver.

O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade

é uma busca da experiência chamada "satori",
a abertura do "terceiro olho".


Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo,
mas o fato é que escreveu:
"Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram

e os olhos dos meus olhos se abriram."

Unknown disse...

Que lindo! Eu ainda não havia lido com a devida calma, porém todo o seu trabalho é muito especial.
Meu querido amigo, foi maravilhoso ter lhe reencontrado.
beijos em teu coração