terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O ELEMENTO POÉTICO NAS LETRAS DE MÚSICAS

Por Cláudio Munhoz

Para entrar no mérito deste assunto, um tanto controverso, por sinal, uma pergunta se faz necessária: devemos pretender que as letras de músicas guardem em sua estrutura as características e os elementos de um poema?

A princípio, uma letra de música para soar agradável aos ouvidos da alma não precisaria necessariamente possuir tais atributos, porquanto a música, como qualquer outra forma de expressão, tem a sua linguagem própria. Em regra, a evolução melódica de uma composição estabelece a freqüência em que o autor deverá sintonizar seu texto para a elaboração da mensagem. A questão, nesse caso, seria mais de sensibilidade, competência e domínio da linguagem musical para se obter bons resultados.

Muitos poetas de ofício costumam se aventurar pelas trilhas sinuosas da música com extrema habilidade e bom gosto, e nem por isso conseguem ou se propõem a produzir poemas na acepção do termo. No entanto, a proposta de musicar um poema, por vezes, pode alcançar resultados surpreendentes, quando a fusão das duas formas de linguagem se dá de um modo harmonioso, como, por exemplo, ocorreu com Motivo, de Cecília Meireles, musicado por Fagner.

A presença do elemento lírico, em maior ou menor grau, na concepção de um poema pode nos induzir a pensar que a música permeia e influencia o ato de criação poética, o que nem sempre corresponde à realidade. Se Cecília Meireles fez transbordar musicalidade em sua obra poética, João Cabral de Melo Neto tratou de negar tal premissa de forma enfática.

Todavia, a esse respeito, Caetano Veloso, na canção Outro Retrato, do CD Estrangeiro, apresenta, em tom confessional e intimista, seu ponto de vista, a partir de uma bem-humorada menção a dois importantes personagens do cenário cultural brasileiro responsáveis por sua formação musical e poética, ao confrontar o que o poeta João Cabral pensava sobre a música com a posição do músico João Donato em relação à poesia (“Minha música vem da música da poesia de um poeta João que não gosta de música. / Minha poesia vem da poesia da música de um João músico que não gosta de poesia”).

E é justamente nesse processo de depuração do “eu” artístico, posto a nu em Outro Retrato, que Caetano Veloso coloca o debate um tom acima: a afirmação da imagem do músico-poeta e do poeta-músico perante sua obra é o resultado de uma busca incessante pelo ponto de convergência entre a música e a poesia, em cuja dimensão habitam os poucos iluminados, aqueles que no desenvolvimento de sua arte alcançaram o altar da excelência artística.

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