quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A POESIA DO INCÔMODO DE ORIDES FONTELA

Por Cláudio Munhoz

Em meados de 2006, a editora Cosac Naify, em parceria com a 7Letras, ofereceu aos amantes da poesia um brinde especial, ao publicar Poesias Reunidas (1969 – 1996), de Orides Fontela (1940 – 1998).

Lembro-me que comecei a ter contato com a obra de Orides Fontela em 1996, por ocasião do lançamento de sua última publicação, Teia, editada pela Geração Editorial. Curiosamente, constatei que uma das vertentes do trabalho que venho desenvolvendo como poeta guarda estreita afinidade com a proposta de Orides, qual seja a de buscar a amplitude e a profundidade da criação através de poemas concisos.

Formada em filosofia, e lutando com extrema dificuldade para sobreviver como professora do ensino fundamental e bibliotecária, essa paulista de São João da Boa Vista deixou-nos uma obra poética de grande valor literário, que encontrou na crítica especializada, tanto no Brasil quanto no exterior, o merecido reconhecimento.

O temperamento intempestivo de Orides, que lhe custou irreparáveis desavenças, principalmente com os amigos muito próximos, talvez refletisse em grande medida esse sentimento ambíguo que lhe dilacerava a alma e impregnava-lhe os versos curtos de uma forma contundente e fria, porém, não menos sensível e perspicaz, provocando no leitor uma estranha sensação de incômodo.

Sem dúvida, a iniciativa da Cosac Naify e da 7Letras veio em boa hora. Em Poesias Reunidas, a intenção de mergulhar no universo poético de Orides Fontela não pode ser reduzida a um simples ato de constatar e reconhecer a grandeza de sua obra. Mais do que isso, deve ser ampliada no desejo de tentar entender um pouco mais a alma de uma poetisa atormentada e solitária, que morreu praticamente na miséria, abraçada à riqueza que a sua poesia produziu.

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